Ao longo deste percurso por terras ourensanas, descobrimos uma grande parte do seu património mais desconhecido.

Sobreviventes pétreos do passar do tempo, apresentam um desigual estado de conservação mas todos mantêm intacto o seu valor como testemunhos artísticos e etnográficos.

Quando estiverem em Santa Comba de Bande, reparem nos encantos que o local alberga: fora dos muros do templo, podem ver-se os restos de uma capela anexa onde se realizavam batismos para que os que ali fossem pudessem entrar na igreja como cristãos; de facto, ainda se conserva a pia batismal.
    Descrição de Vilanova segundo Curros Enríquez

Outros dados de interesse...
- Museu de Arte Sacra de Santa Clara: Permanece fechado de 15 de janeiro a 15 de fevereiro. Mais informação sobre horários e entradas em www.allariz.com.
- Centro Arqueolóxico Aquae Querquennane: 988 444 401. Mais informação sobre horários e entradas em www.fundacionaqvianova.com.

1º Dia

Começamos a nossa visita numa vila de marca, visto que na mesma podemos ver a maior concentração de espigueiros de toda a Espanha. Chegam a contar-se 35 cabaceiras (espigueiros) no conjunto de espigueiros da Merca. Alinhadas numa ladeira para um perfeito arejamento, são o melhor testemunho de um passado rural muito vivo. Passeando pelo Campo de la Feria, sentirão como o assobio do vento atravessa os buracos das paredes de madeira ocre.

Na Merca, todos os espigueiros são deste material à exceção de dois que são mistos. Se quiserem saber qual é a antiguidade de cada exemplar, a chave está em verificar que tipo de pregos tem a porta. Se forem de ferreiro, estarão perante os mais antigos.

Pode haver recursos que não estejam georreferenciados e, portanto, não os está a ver.

Depois desta paragem etnográfica, continuamos o nosso trajeto até terras de Celanova, tantas vezes cantadas por conhecidos autores das nossas letras, tais como Curros, Celso Emilio e Méndez Ferrín. Começaremos pela povoação medieval de Vilanova dos Infantes. Andando devagar pelas suas ruas, encontraremos alguma das antigas casas senhoriais que rodeiam a torre do castelo, destruído pelos Irmandiños a meados do século XV e reconstruído mais tarde. Também podemos encontrar os restos de um convento ao lado da atual igreja paroquial, de estilo românico. Conserva-se neste templo um Cristo de madeira do século XII, de tamanho natural e de matizes bizantinos. Reparem especialmente na sua cruz, dado que parece os ramos de uma árvore.

Já no centro da povoação de Celanova, em plena Praça Mayor e nas redondezas do Convento de  Celanova, irão conhecer a capela moçárabe de São Miguel. Constitui um exemplo único na Península Ibérica e torna-se essencial para entender os tempos da repovoação cristã. De certeza que a primeira coisa que vos chamará a atenção serão as suas dimensões, apenas 22 metros quadrados, mas também é singular pela sua estrutura. Entrem para ver de perto o seu arco de ferradura com alfiz.

A poucos quilómetros de Celanova, aguarda-vos o Castro de Castromao numa elevação que domina o rio Arnoia. Detenham-se no cimo rochoso e perscrutem o amplo horizonte que se abre perante vocês. Imaginem por uns instantes os habitantes destas terras, a viver o seu dia-a-dia nestas casas. Percorram a sua muralha de 500 metros de perímetro e observem o desnível revestido com alvenaria. A sua situação, em plena Via Romana XVIII, justifica a grande quantidade de restos encontrados, tais como moedas, cerâmica ou miliários que hoje podem encontrar no Museu Provincial.

Continuando para o sul e seguindo as marcas do passado, chegamos a Bande para conhecer o templo visigodo de Santa Comba. Este santuário, que data da segunda metade do século VII, tem uma planta de cruz grega e perímetro retangular do qual sobressaem a capela-mor e o pórtico. Quando ali estiverem, reparem nos encantos que o local alberga: fora dos muros do templo, podem ver-se os restos de uma capela anexa onde se realizavam batismos para que os que ali fossem pudessem entrar na igreja como cristãos; de facto, ainda se conserva a pia batismal. Outra das coisas que vos chamará a atenção é a fonte denominada o “pociño dos enamorados“ , junto aos muros do átrio. Experimentem beber destas águas e talvez alguém caia presa dos vossos encantos.

Vamos agora até ao vizinho município de Lobios para visitar a igreja de São Salvador de Manín, popularmente conhecida como a igreja de Aceredo. Este local sagrado tem uma rica história cheia de relato de acontecimentos curiosos. A mais chamativa é, sem dúvida, a sua mudança de local, pedra a pedra, por duas ocasiões. Originalmente, o templo foi construído em Manín e posteriormente transferido, no século XVIII, para os terrenos hoje alagados pela albufeira de Lindoso. O seu valor arquitetónico, como um dos melhores expoentes da arquitetura barroca da comarca, salvou-a de novo no século XX para ser erigida hoje no seu atual local.

Retrocedendo ainda mais no tempo das nossas descobertas, visitamos, no município de Muíños, os dólmenes de Maus de Salas. Esta é uma das jazidas megalíticas mais importantes da Galiza. Perto deste local, encontrarão também o agreste Parque do Xurés, de evidente valor natural e paisagístico.

Na jazida de Maus de Salas, poderão descobrir vários enterramentos megalíticos das diversas fases de construção. Um deles, a Casiña da Moura, não se conserva no sítio original devido ao alagamento ocorrido pela construção da albufeira. Para chegar a este dólmen de corredor, teremos de percorrer vários quilómetros e atravessar uma ponte estreita na parte superior da barragem. Atravessando a albufeira de Salas, encontramos a Casola do Foxo, que corresponde ao período inicial do megalítico. Na origem, o acesso estava localizado a sudeste, como em quase todos os dólmenes galegos. De qualquer forma, a sua entrada não é original, dado que os pastores a taparam para se protegerem do vento.

Para pôr fim a esta jornada, nada melhor do que fazer uma pequena caminhada pelos arredores da albufeira: com o pôr-do-sol, as águas tornam-se de uma cor quente e tornam-se num bom remédio para desligar a mente.

2º Dia

De regresso à Roma imperial, nesta segunda jornada passaremos revista ao acampamento militar romano Aquis Querquennis, no município de Bande. Construído no reinado de Vespasiano, foi abandonado no ano de 120 d.C., aproximadamente. A teoria mais provável sobre a sua construção é a que defende que o fez como posto de vigilância da Via XVIII ou Via Nova entre Bracara e Asturica, as atuais Braga em Portugal e Astorga em Leão.

 

Prova disso é que este local cumpria muitos dos requisitos exigidos: era um local de fácil acesso e existiam pastos, grande quantidade de lenha e as apreciadas águas termais. Antes de chegar até aqui, podemos fazer uma paragem no Centro de Interpretação Aquea Querquennae, onde conseguirão dar resposta a muitas das vossas dúvidas.

Pode haver recursos que não estejam georreferenciados e, portanto, não os está a ver.

Continuando o nosso caminho, encontramos os Baños de Bande. Nestas termas, foram encontradas duas aras; numa delas pode ler-se “Boelio Rufo cumpriu este voto às ninfas, intercedendo pela sua própria saúde”. Lembrem-se de levar o fato de banho porque assim que sentirem o vapor da água fumegante a sair das quatro banheiras à maneira de convite, vai ser muito difícil resistir.

Com o corpo relaxado após o banho nas quentes águas termais, deslocamo-nos até Xinzo de Limia para visitar o antigo convento do Bo Xesús de Trandeiras. Este antigo cenóbio data do século XVI e é de estilo gótico português, com elementos renascentistas. Não percam a oportunidade de percorrer o harmonioso claustro: percorrer as suas teatrais ruínas dar-vos-á a impressão de estar a viajar para tempos melhores nos quais o local estava vivo. Quanto à sua construção, são várias as lendas que teorizam acerca da sua origem. Uma delas narra que um grupo de cavaleiros portugueses decidiu, perante o aparecimento de uma imagem do Menino Jesus, construir uma capela que atraiu uma grande devoção. Esta fé motivou a fundação do convento por parte dos franciscanos.

Seguindo para o norte, encontramos uma povoação de sonho, Allariz. Situado ao lado do rio Arnoia, é um dos conjuntos históricos melhor conservados da Galiza, no qual predomina a pedra, a madeira e, evidentemente, a natureza. Percorram as suas ruas olhando bem atentos para este autêntico museu ao ar livre. Quase sem darem por isso, chegarão ao convento de Santa Clara, que não deverão deixar de visitar. Fundado pela dona Violante, esposa do rei Alfonso X o Sábio, encontrarão ali uma imagem de marfim da Virgem Abrideira, do fim do século XIII. Trata-se de uma imagem da Virgem sentada a segurar no Menino que, ao abrir-se, parece um retábulo destinado a narrar a vida de Maria, com cenas do Nascimento, da Ascensão, da Coroação, da Anunciação e da Epifania.

Allariz é o sítio ideal para almoçar nalgum dos restaurantes de um dos lados do rio enquanto contemplam a beleza da paisagem. Ah! Não se esqueçam de provar os seus almendrados, sem dúvida alguma uma deliciosa recordação desta viagem.

Para rematar o dia, deslocamo-nos até ao município de Maceda para conhecer um dos edifícios civis mais relevantes da Idade Média na Galiza, o castelo de Maceda. A fortaleza cumpria uma função de vigilância e de defesa, primeiro contra as incursões muçulmanas e, mais tarde, contra as lusitanas. Pelos vistos, tem os muros mais grossos do que qualquer outra fortaleza europeia. Como dado curioso, constatamos que com a idade de 11 anos viveu entre estas paredes Alfonso X O Sábio, autor das conhecidas Cantigas de Santa Maria.

Se, depois de tudo o que viram e sentiram, ainda conservarem um espaço na nossa retentiva, faremos uma última deslocação até Xunqueira de Ambía para visitar a sua Colexiata.

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